Não acredito em “tipos de corpo” ou O que deveríamos vestir?

Por Gabriela Casartelli | em brainwear
Não acredito em “tipos de corpo” ou O que deveríamos vestir?

A moda não é sobre regras. A moda existe para trazer liberdade, para quebrar padrões, para mostrar alternativas além do que existe POR AÍ. O mais engraçado é que nem a indústria — interessada em vender mais e mais — conseguiu entender isso. Se é possível aumentar ainda mais o “range” de consumidores, pessoas que saem do padrão, uma verdadeira massa de novos consumidores, por que não fazê-lo? Pasmem: a resistência e o medo do diferente são maiores que a vontade de (oi!) ganhar dinheiro com ele!

Da mesma forma que o “gay market” demorou para acontecer, o “all sizes” começa a aparecer com mais força, a discussão sobre “genderless clothes” também engatinha tantas outras pautas ficam arquivadas porque o mercado tradicional aparentemente é suficiente para que a indústria sobreviva. Mas sobre esses outros temas vamos falar em outro post!

O que falar sobre regras que até hoje — hoje já é 2016, gente — são usadas para auxiliar as mulheres a se vestirem bem. Primeiro, que tipo de auxílio é esse? O que é “se vestir bem”? Estar de acordo com você ou com o que querem que você seja?

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Disseminadas ao longo dos anos, essas pequenas REGRAS nos ensinam sobre as peças ideais para o nosso TIPO DE CORPO. Mulheres de todas as idades, dos 15 aos 80 anos (com margem de erro de MUITOS anos) recebem essas informações e tentam se adaptar até entender que, SIM, existe uma alternativa. O que ganhamos com as REGRINHAS? Padronização de pessoas diferentes, crescimento da insegurança, redução/destruição da auto-estima feminina, incentivo para distúrbios alimentares, aumento do desconforto com o próprio corpo — que deveria ser o principal instrumento para APROVEITAR a vida, não encanar.

Mas além disso, o fato de se vestir para o “SEU TIPO DE CORPO” alimenta a ideia de que parecer magra, ou esguia, ou com as pernas e cintura mais finas é muito mais importante do que usar a roupa de forma pessoal, como diversão e e auto-expressão. Por causa da expressão “tipo de corpo”, as mulheres se obrigam a vestir o que não querem, apertar o que não gostam (ou que foram ensinadas a não gostar), sentir vergonha em usar algumas peças específicas e também deixam de usar peças, estampas e modelagens com as quais se identificam “porque nelas não fica tão bem” e aí não estão permitidas a usar.

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E vem cá, que idade você tem que precisa de um MANUAL para se vestir com regras e mapas de combinação e LINHAS GUIA? Talvez essa seja uma das principais coisas das quais a mulher ~moderna~ ainda não conseguiu deixar pra trás, abrir mão, largar de vez. Sabe por quê? Porque issojá está TÃO entranhado na nossa mente e na nossa vida que apesar de termos autonomia profissional, sexual e outras tantas não temos autonomia quando se trata do nosso próprio GUARDA ROUPAS! Mas, vem cá, alguém conhece seu corpo MELHOR QUE VOCÊ?

Quantas reportagens e GUIAS de “como usar” a gente já bateu o olho nessa vida? Se a moda já é mal vista, associada automaticamente com consumo, futilidade, padronização, isso não deixa esse mercado ainda mais mal visto? Tantos veículos de comunicação e personalidades nos ensinam diariamente que as roupas existem para manipular, esconder ou minimizar partes do nosso corpo.

Se temos que amar o que vestimos? Temos. Se amamos? Sim. Mas será que todas as mulheres não amariam ainda mais quando estivessem usando algo que tem a ver com quem elas são de verdade — e não porque o look aparentemente emagrece dois quilos e aumenta dois centímetros?

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É importante dizer que eu sei que estampas, recortes, tecidos e modelagens interferem nas silhuetas e causam ilusões de ótica. Impressões de que ~ALGO. Isso é óbvio que existe e pode, sim, alterar proporções. A questão é que qualquer pessoa e, por consequência, qualquer corpo, tem o direito de jogar esse jogo de experimentação que também é um dos caminhos para a construção do estilo pessoal.

Eu escrevo, penso, trabalho e insisto muito nesse ponto do ESTILO PESSOAL, sobre como você pode se tornar uma pessoa melhor para si e para os outros quando se descobre e se liberta — e a moda tem um papel muito grande sobre isso. Técnicas, experimentações, testes, erros. Diferentes processos criativos podem nos ajudar — ao longo dos anos — a ~lapidar o nosso estilo pessoal. Mas se tem algo em que eu realmente acredito que NÃO AJUDA EM NADA são esses guias de TIPO DE CORPO. E digo isso porque para desenvolver o seu senso de estilo você deveria passar por essa fase de experimentação, tentar diferentes modelagens, cortes, tecidos, estampas, modelos, peças e materiais para entender quais deles fazem parte da sua estética. E quais você quer continuar usando e se sentindo bem.

Se vestir de acordo com essas guidelines ou negar certas peças porque lhe foi ensinado que aquilo apenas “não pode” no seu corpo destrói o processo de descobrimento do seu estilo pessoal. Você poderia descobrir que uma das peças que você nunca usou — porque não podia — seria uma das peças determinantes para o seu conforto ou bem estar no dia a dia. E que, na verdade, você poderia se sentir BEM & LINDA usando ela!

É fácil dizer para você usar as peças que gosta, mas depois dessa avalanche midiática de certo e errado sobre as cabeças das mulheres eu sei que é bem difícil sair de baixo de tanta neve. Quero falar disso em outros posts, mas é muito importante testar, nem que seja em casa. Nem que seja por um dia. Crie os seus mecanismos de defesa, saiba rir de você antes dos outros e, acima de tudo, use tudo que faça você se SENTIR BEM. Se você estiver se sentindo bem NADA pode atingir você!

E vamos parar de usar (e de cobrar) essas regras, ok?

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